Leandro Ferrari Lobo é presidente da Associação Náutica Brasileira (ACATMAR), mas ele prefere ser chamado simplesmente de Mané Ferrari. Jornalista, gestor em turismo e empresário, incorporou ao próprio nome a marca do Ilhéu. Nascido na Maternidade Carmela Dutra, há 53 anos, atua há mais de 20 anos como um dos principais nomes da economia do mar no Brasil, com forte presença internacional. O manezinho raiz, com carteirinha da Carmela, atua em várias frentes, simultaneamente, mas seu porto seguro são as duas filhas, também nascidas na Ilha de SC, e a esposa.
O Senado acaba de aprovar a criação da Frente Parlamentar da Economia do Mar, uma bandeira histórica da Acatmar. O que significa, na prática, esta conquista?
Essa conquista é a materialização de anos de trabalho da Acatmar em defesa do setor e da economia do mar como política de Estado. Na prática, significa que finalmente teremos um fórum permanente no Congresso Nacional para discutir e propor legislações que fortaleçam a indústria, o comércio, os serviços e o turismo náutico, integrados de forma estratégica e sustentável.
É um passo essencial para dar ao mar o mesmo peso econômico e político que já têm outros setores consolidados. E aqui é fundamental registrar o protagonismo do Deputado Federal Valdir Cobalchini (MDB/SC), que há anos compreendeu a importância dessa pauta e iniciou o processo na Câmara, e do Senador Esperidião Amin (PP/SC), que, numa reunião em que estivemos juntos, identificou que pelo Senado o trâmite seria mais rápido e eficiente.
Naquele encontro, fizemos juntos uma ligação ao Deputado Cobalchini, e, em comum acordo, ambos entenderam que a construção de uma Frente Parlamentar mista — envolvendo senadores e deputados — seria mais abrangente e com maior capacidade de articulação. Com a experiência e habilidade do Senador Amin, o processo avançou com rapidez e competência, consolidando esse elo definitivo entre o setor e o Parlamento.
Quais são os principais desafios para a indústria náutica e a economia do mar?
Os principais desafios estão no déficit de infraestrutura e na falta de uma visão integrada do setor por parte dos governos. Precisamos de mais marinas, mais espaços públicos náuticos bem planejados, linhas de crédito específicas e uma agenda regulatória que incentive o crescimento sustentável da indústria e dos serviços. Ainda lutamos contra a burocracia e a falta de reconhecimento do enorme potencial econômico do mar como gerador de empregos e riquezas para o Brasil.
É importante lembrar que esse potencial não se restringe ao litoral. Também temos vastas oportunidades nas águas interiores — rios, lagos e represas —, que ainda têm muito a crescer e a fomentar a economia náutica em todo o país.
Um bom exemplo a ser seguido é o da Itália, que já enxerga o setor náutico como uma economia pujante e estratégica. Em 2024, a economia do mar ligada ao setor náutico italiano figura entre as quatro maiores economias do país, mostrando o quanto é possível avançar também por aqui, gerando ainda mais emprego, renda e desenvolvimento para o Brasil.
Santa Catarina é o principal polo de produção náutica do país, mas ainda está longe de explorar todo o potencial oferecido pela economia do mar. Quais os projetos e oportunidades que você imagina como “bola da vez” para SC?
Santa Catarina já é o maior polo náutico do Brasil, mas pode ir muito além. As “bolas da vez” são a consolidação de marinas públicas e privadas bem projetadas, projetos de transporte marítimo para mobilidade urbana e turística, a estruturação do turismo costeiro de alto valor agregado e a internacionalização de nossas marcas com apoio institucional. Também vejo grande potencial na valorização da Baía da Babitonga e na revitalização de regiões como a do Saco dos Limões em Florianópolis, trazendo exemplos internacionais de integração urbano-marítima para cá.
A Marina Beira-Mar Norte, finalmente, deve sair do papel com pelo menos cinco anos de atraso. O transporte marítimo, entra governo e sai governo, segue apenas como promessa. Apesar de ser uma Ilha, Florianópolis ainda está “costas para o mar”?
Infelizmente, sim — e digo mais: você está sendo modesto. Já se vão pelo menos três décadas desde o primeiro projeto idealizado ali pelo meu tio, Paulo Gil Alves, da Pedrita, junto com outros empresários visionários. Ainda tratamos o mar como cenário, não como protagonista da economia.
A Marina Beira-Mar Norte é fundamental para virar essa chave, mas já deveríamos estar discutindo a quinta grande marina na cidade, não a primeira. Precisamos enxergar o mar como infraestrutura estratégica e vetor de desenvolvimento sustentável.
O transporte marítimo urbano, por sua vez, é urgente para melhorar a mobilidade e a qualidade de vida, e quando integrado aos demais modais — como já acontece em várias cidades pelo mundo — pode transformar a dinâmica da região. Enquanto não houver um plano concreto, com cronograma e execução, continuaremos presos a promessas e a um enorme potencial desperdiçado.
A Acatmar lidera o programa Limpeza dos Mares, reconhecida como uma das maiores iniciativas de preservação e de educação ambiental marítima do país. Qual a importância desta conscientização?
O mar é nossa casa e nossa principal fonte de riqueza; não podemos continuar destruindo aquilo que nos sustenta. O Limpeza dos Mares nasceu justamente para mostrar isso de forma prática, retirando milhares de quilos de lixo das águas e conscientizando crianças e adultos sobre a necessidade urgente de mudar hábitos. Essa educação ambiental é essencial não apenas para preservar, mas para garantir que as próximas gerações encontrem um mar limpo, produtivo e capaz de continuar gerando oportunidades para todos.
O projeto cresceu e hoje é exemplo para outras iniciativas, inclusive fora do Brasil. Em 2019, chegamos à Itália, onde uma associação coirmã assinou um protocolo para executar os mesmos métodos criados aqui. Foi emocionante ver os canais de Veneza sendo limpos por um projeto manezinho, nascido e idealizado em nossa terra.
Atualmente, o Limpeza dos Mares vai muito além das etapas de limpeza: virou revistinha em quadrinhos para crianças, ganhou um filme para cinema, criou novas formas de conscientização como a Blitz no Mar, em que abordamos embarcações para dialogar diretamente com navegadores e turistas no nosso litoral. Também criamos a primeira Olimpíada Escolar de Limpeza dos Mares, em que alunos competem em equipes, aprendem na prática e presenciam o impacto do lixo que se acumula no fundo do mar.
Tudo isso nos enche de orgulho e mostra, com resultados concretos, que podemos muito mais. E se cada um fizer a sua parte, tenho certeza: juntos vamos mudar essa história.
E nada disso seria possível sem as empresas que acreditam e caminham conosco nessa missão. Quero agradecer a todos os apoiadores que nos ajudam a movimentar verdadeiros exércitos do bem, com destaque especial ao nosso mantenedor Fort Atacadista, que compreende que proteger os mares é proteger o futuro. É graças a essa união, a esse compromisso coletivo, que conseguimos continuar fazendo o bem para todos — para o mar, para as pessoas e para as próximas gerações.